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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Seras sempre a minha pátria, Mompracem...

Tendo sido convidado pela Maria João, para escrever no ” Cons(c)elho” sobre cultura, decidi falar sobre livros de aventuras (tentando assim corrigir uma grande injustiça). Mais que populares estes livros (geralmente lidos na adolescência e na juventude), são marcantes para o resto da vida (afinal quantos homens de 50 anos ainda guardam carinhosamente os seus livros de Emilio Salgari, ou a sua colecção de Tintin). Não pretendo com este texto fazer uma dissertação profunda e generalizada sobre o tema (até por nunca os ter estudado profundamente); pretendo antes falar um pouco sobre os que mais me marcaram.



Fala-se em livros de aventuras e fala-se em Emilio Salgari; fala-se em Salgari e fala-se em Sandokan, o Tigre da Malásia. Foi dos primeiros livros que li, e através dele conheci o oriente longínquo: Não o oriente real da pobreza, da miséria, da doença, da fome, mas o Oriente lendário misterioso, opulento e excessivo. Com Sandokan e com o seu irmão de armas ,Eanes de Gomera (um português com um apurado sentido de ironia) lutei contra a opressão colonial do império britânico, percorri as ruas de Calcutá, embrenhei-me nas selvas malaias e naveguei no longínquo mar da Ásia a bordo dos paraus de Tigre da Malásia.



Mais tarde embrenhei-me em Dumas, principalmente na sua obra prima, os três mosqueteiros. Ao serviço do rei, percorri á desfilada as estradas de França, tentei impedir o assassinato de Buckingam e combati por honra (e acima de tudo por proveito), contra os inimigos do trono e do altar. Através dos olhos de d’Artagnan (uma espécie de Ulisses da idade moderna), vi a sociedade como só um homem com um grande sentido de humor a pode ver. Conheci os grandes do mundo; aqueles que com uma ordem apenas decidem o destino de povos e nações: os Richelieus, os Buckingams, as Anas d’Austria. Mas também conheci os pequenos, a carne para canhão: os Planchets, as Bonancieux, e os próprios 3 mosqueteiros, Atos, Portos e Aramis.


Muito mais tarde (por estranho que pareça), comecei a aventurar-me em alguns romances gráficos. Estes tiveram o seu apogeu na década de 70: o mundo tinha perdido as suas ilusões romanescas sobre a nobreza da guerra e dos guerreiros, ao ver as imagens transmitidas em directo do Vietname. Logo o personagem principal já não é um herói; é o contrário: é um anti-heroi, um renegado, um pária da sociedade, com a qual pouco se identifica. Não é admirado pelos que o cercam, sendo muito pelo contrário desprezado ou odiado. Altamente individualista raramente serve apenas uma causa, e se a serve deve-se a motivos muito próprios.

Dos romances gráficos que li, os que mais marcaram, (pela sua complexidade e pelo seu estilo um pouco "noir") foram Corto Maltese e Blueberry.




O primeiro retrata a história dum marinheiro sem pátria: filho de uma prostituta cigana, e de um marinheiro inglês, cresce no bairro judeu de Córdova, não assumindo assim uma única identidade cultural. Enquanto novo, uma vidente revela-lhe que a sua mão não tem a linha da vida. Corto reage a esta situação cravando-a com uma navalha, , tornando-se assim para sempre, único senhor do seu destino.
Ao lado de Corto Maltese, e de Rasputine (não confundir com o místico russo) , observei as grandes nações a degladiarem-se nos campos da Flandres, assisti ao principio do fim da sociedade aristocrática, com a derrota e morte de Manfred Von Richthofen (o barão vermelho), o seu ultimo campeão. Vi também mais tarde o nascimento de uma nova e mais terrível sociedade, na tundra siberiana, durante a guerra civil russa. Isto tudo e muito mais, vi na primeira pessoa. Mas em nada interferi, a (quase) todas as lutas e combates fui indiferente; não tomei partido. Conheci também pessoas fascinantes: frios senhores da guerra, sensuais (e não menos frias) condessas russas, lideres de sociedades secretas, revolucionários, espias, prostitutas, ciganos, homens santos. Todos eles cumprimentei com um sorriso de desprezo nos lábios. Vi-os no apogeu da sua vida; no auge da sua importância; e vi-os também na hora da sua morte, quando o destino indiferente à classe, educação, riqueza, ou ideais políticos, lhes veio cobrar a sua divida.



Termino falando do Tenente Blueberry ( Mike Donovan ), através do qual conheci o velho oeste americano. A sua história começa pouco após o fim da guerra civil americana: vemo-lo pela primeira vez em “Junta Junction”, de facto branco inconsciente devido ao efeito do álcool, caído numa pocilga. Nessa imagem está toda a história do personagem: o cavalheiro sulista (que se alistou no exercito unionista), o soldado incapaz de se adaptar á vida em paz, o magnifico guerreiro que atravessou a Guerra Civil como se esta fosse uma pista de obstáculos, arrasado pelo que sente e que não pode partilhar, pela morte e destruição que provocou. Do outrora orgulhoso aristocrata georgiano só sobra o velho fato. O resto, pai, bens, amor, foi destruído pela guerra.
Enquanto serve na ultima fronteira Blueberry opta muitas vezes por auxiliar os índios (o que acabará por levar á sua expulsão do exercito), tornando-o assim duplamente renegado. A partir daí Blueberry levará a vida dum pistoleiro e jogador errante, tornando-se em grande medida num herói trágico: sabe que tem os dias contados, que a chegada da civilização ditará o seu fim. Por isso desloca-se sempre para oeste tentando fugir de todos os seus símbolos (o comboio, o juiz, o homem de negócios, a lei) tentando assim adiar o inevitável.


Muitos livros ficaram por falar: o corsário negro, o ultimo moicano, Ivanhoe, O Bobo, a flecha negra, Miguel Strogoff etc. A grande questão é: porque são estes livros tão marcantes, para tantas pessoas? Talvez porque através deles viaja-mos e conheçamos os quatro cantos do espaço e do tempo: Conhecemos o ocidente e o oriente, as selvas e as montanhas, o oceano e o deserto. Não como foram na realidade, mas como deveriam ter sido. Como foram apenas e só na mente dos homens, ou seja na lenda. Ou talvez porque nós, que nos preparamos para ter um qualquer emprego conformista de colarinho branco, ainda tenhamos um pequeno recanto do subconsciente, que quer gritar desesperadamente, “EU NÃO VOU POR AÍ!!”. Talvez queiramos como os heróis recusar o obvio, a conformidade, a igualdade, e tentar contra todas as adversidades , lançarmo-nos na busca pelo “El Dorado”, pelo Shangri-La , pelo Xanadu, pelo Éden perdido no principio dos tempos… Ou talvez não. Talvez só esteja a dizer disparates… O que interessa é que se tratam de bons livros, não devendo por isso ser desprezados; antes lidos na altura apropriada.


P.S.: Tambem publicado no jornal da jp-porto

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

MECdreamy

Para todos aqueles que, como eu, gostam e têm saudades do Miguel Esteves Cardoso e do seu estilo primoroso, eis uma entrevista imperdível na qual se fala de comida, de política, de cultura, de livros e do Portugal que temos... tudo regado com aquele delicioso humor "MEC" do qual já sentíamos falta.

A ouvir, aqui.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cultura - uma visão

Filipa César - ringhban

A Cultura é um ponto importante para a educação e promoção de um Povo no mundo. A cultura abrange áreas tão diversas como a gastronomia, as artes plásticas, o cinema, a fotografia, a dança, o teatro.

A cultura de uma população é um bom indicador do grau de desenvolvimento de um Pais e das suas populações. Quando um povo tem tempo para se dedicar à valorização e fruição da sua cultura é sinal que questões de índole maior como a Fome, a Saúde, a Habitação condigna para todos já se encontram parcialmente resolvidas. Um povo que possui cultura, e interesse por áreas que vão da gastronomia ao teatro, que produz cultura, é um povo erudito, e pode ser um povo que produzirá marcas intemporais no século em que vive.

Actualmente vamos a museus ou cidades, visitar vestígios ou sítios arqueológicos, visitando a cultura e os artefactos produzidos por este povo. O que realmente fica para a posteridade são as marcas que uma civilização produziu através dos instrumentos da cultura.

É por isso importante educar as populações para a sensibilização e produção de cultura.
Portugal encontra-se ainda numa fase embrionária. A cultura em Portugal ainda é vista como um assunto de menor importância, apenas tratado por alguns ou até uma área que normalmente a esquerda absorve e bem. A cultura e o seu tratamento como assunto menor, mostra a ignorância de alguns. Portugal encontra-se assim num processo que se pode apelidar de embrionário, pois só agora se começa a dar algum valor aos processos culturais e aos frutos que se pode colher deste assunto menor.

As vanguardas artísticas foram e vão continuar a ser as produtoras de cultura de qualidade, de cultura que avança em termos artísticos e só por si avança e marca um século e uma década.
Estas franjas sempre marginais ao processo artístico instalado são importantíssimas para a produção de cultura de qualidade, de produtos artísticos de excelência que vão por sua vez internacionalizar o Pais e o seu povo. É obvio que estes nichos das vanguardas não são acessíveis a todos, devido à fraca sensibilização cultural da nossa população, contudo estas vanguardas devem ser financiadas e promovidas enquanto tal, isto apenas quando o seu valor for reconhecido como motor possível de avanço artístico/cultural, para mais tarde as podermos fruir em pleno.

Em Portugal existem vanguardas, artistas de reconhecido valor artístico, como Cabrita Reis, Julião Sarmento, Paula Rego, Joana Vaconcelos estes obviamente já pertencem ao de arte mundial e já têm o seu reconhecimento além fronteiras ao mesmo tempo que ajudam a divulgação do nome Portugal no mundo, mas existem outros que ainda não têm este valor reconhecido, e que muitas vezes são preteridos em torno de interesses económicos mais vantajosos.
Como exemplo disso temos casos recentes onde salas de espectáculo são dadas à exploração a companhias de eventos que se dizem produzir espectáculos, por vezes duvidosos em termos artísticos, e que apenas promovem o lucro fácil.

É obvio que um filme de Manoel de Oliveira não é rentável economicamente, pois não enche salas de cinema e nem todos têm a sensibilidade para o poder entender, mas o seu valor é reconhecido mundialmente, e o nome de Portugal faz-se ouvir devido aos seus filmes.
É essencial não promover o espectáculo fácil e economicamente viável em detrimento do artístico que não estamos preparados para aceitar. É obvio que não se pode dar pérolas a porcos…mas sim tentar deixar de ter porcos para podermos ter mais pérolas.
A Cultura têm obviamente de tentar ser lucrativa, mas não se pode exigir lucros imediatos nem receitas totais e a 100%.

O caso de Serralves no Porto é um caso exemplar de cultura lucrativa. A persistência de um conjunto de mecenas associados ao Estado com a ideia de promover a arte contemporânea com valor internacional e nacional, teve resultados.
Serralves é sem dúvida alguma um exemplo de conjugação de esforços entre uma boa gestão e uma correcta e acertada escolha de arte a promover. A criação de um público assíduo do espaço de Serralves, sendo este público consumidor de espaços como a cafetaria, a livraria, o parque, a loja e também o museu. O público frequenta o espaço de Serralves não só pelo museu mas sim pelos serviços disponibilizados no pacote. O pacote de Serralves é sem dúvida atraente para o consumidor, o consumidor cosmopolita e habituado a estes hábitos que não dispensa na sua vida actual não deixa de visitar o museu e até começar a consumir arte contemporânea.

A promoção do museu no Pais, a marca associada a Serralves tanto internacional como a nível nacional tornou-se já uma referência de cosmopolitismo importante na promoção da cultura.
A cultura não é só para alguns, a cultura é para todos, mas para ser para todos temos de a embrulhar num pacote bem bonito e atraente. Serralves torna-se assim excepção aos restantes museus portugueses, e à ineficácia do sistema operativo que os gere actualmente.
À parte de um ou outro museu que vive associado a edifícios emblemáticos e de valor arquitectónico referencial no Pais, como o caso do Palácio da Pena em Sintra, os restantes museus vivem de exposições temporárias e de um acervo de arte mal gerido e defeituosamente mostrado ao público.
É necessário que estes museus sigam o exemplo de Serralves ou da Gulbenkian, utilizando pacotes atractivos para poder chamar a população, sensibilizando o povo para o que as vanguardas estão neste momento a produzir.
Vejamos o desenvolvimento que Bilbao teve depois do efeito Gugenheim, as receitas turísticas que advêm deste museu para toda a Espanha. Portugal precisa de um museu com escala mundial. O seu espólio em parte já está constituído, bastaria o desmantelar e aglutinar de espólios como o do Soares dos Reis no Porto, de Arte Antiga em Lisboa e de colecções privadas já na posse do Estado como a colecção Berardo.

A ineficácia de alguns museus em Portugal deve ser colmatada pela criação deste grande pacote museológico com uma marca identitária forte, exportando esse produto para o mundo e com ele esperar os frutos. Agora sim poderíamos dar as nossas pérolas aos porcos…

sexta-feira, 7 de março de 2008

Instituto Camões



Infelizmente o mau estado da Cultura e do Ensino em Portugal estende-se a outras paragens, parece piada de mau gosto mas é verdade - Instituto Camões na China sem aulas de português.