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domingo, 16 de novembro de 2008

BPN: o que aconteceu, como, e o que deve vir a acontecer (supostamente)

O Manuel habitual ferquentadador deste blog fala do colapso BPN:

"(...)Antes de se atribuir à prática do livre-mercado (bode expiatório para todos os males do mundo, e quiçá do mau estado em que se encontram alguns planetas do nosso sistema solar) analisemos o que correu mal e o que foi feito no Banco Português de Negócios (BPN). (...)
Nessa altura estava na Presidência do BPN um antigo ministro de Cavaco Silva, José Oliveira Costa (que ocupava o cargo no BPN desde 1997). Após uns problemas em 2008 com o Banco de Portugal (envolvia informações sobre accionistas e separação de áreas financeiras que não foram prontamente cedidas) os principais stock-holders do BPN, assustados com a fama que tanto o banco como o seu Presidente estavam a ganhar, pressionaram Oliveira Costa a sair. Dito e feito, Oliveira Costa saiu. Sucede-lhe Abdool Vakil, e mais tarde Miguel Cadilhe. Ambos reportam ao Banco de Portugal as inúmeras infracções cometidas pela anterior administração, e as falhas de regulação que o sistema cometeu.
Ciente da situação cada mais "mergitur" e menos "fluctuat" do banco, e com uma recessão económica a caminho, Miguel Cadilhe optou por sanear algumas contas do BPN com venda de património, filiais e apoios de outros bancos. Insucesso atrás de insucesso, foi pedir ajuda ao Grande Pai, o Estado. Propôs um plano que envolvia, em princípio, 600 milhões de euros para tornar o Banco insolvente. O Estado nacionalizou o BPN, contra a vontade de Cadilhe, e já injectou, até agora, cerca de 800 milhões.
As razões para esta acção do Estado baseiam-se na recusa de uma colaboração com a administração actual do banco e a ideia de que o dinheiro dos investidores seria melhor investido numa nacionalização, bem como o perigo de que uma falência do BPN poderia causar na economia portuguesa.
Assim, o Estado resolve fazer o seu plano. Morrem as partes do BPN que não interessam (deixa-se o mercado funcionar com a sua acção negativa e regeneradora) e salva-se as partes que interessam, como os investimentos, negócios e a parceria com a Sociedade Lusa de Negócios, que segundo Cadilhe terá muito a perder com esta nacionalização.
Chega assim a hora de culpar e pedir contas aos verdadeiros protagonistas deste primeiro arrombo da crise de 2008 em Portugal.
Terá sido o Mercado Livre e a falta de regulação? Não. O Mercado Livre nunca poderia originar uma situação destas por razões muito simples: os problemas do BPN baseiam-se na criação do banco. Corrupção, financiamento ilegal, contas "off-shore", lavagem de dinheiro, todo o tipo de coisas que se conseguem com o número exacto de conhecimentos tidos dentro dessa enorme alcateia de opções para facilitar o negócio a que se chama "Governo". O problema no BPN não foi a sua liberdade de investir em coisas que deviam ser controladas por um qualquer poder político. O BPN violou sistematicamente a Lei, e a mais elementar supervisão, normalíssima num Estado de Direito e que neste caso devia ter sido feita pelo Banco de Portugal, falhou. E falhou "de propósito", pois está corrupta até às raízes.
A culpa é do estado de letargia em que Vitor Constâncio, Governador do Banco de Portugal, responsável pela nacionalização,se encontra mergulhado voluntariamente, dentro de uma tina de formol, e da qual acordou para importunar o pânico dos acordados..."

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A aula de Constancio



Terça-feira resolvi assistir á longa maratona de 5 horas, que foi o inquerito ao Governador Vitor Constâncio. A razão porque assisti a esta monumento ao tédio não o sei. Talvez por me sentir com problemas de consciência e me quisesse, subconscientemente, penitenciar.
Deparei-me com um espétaculo absolutamente ridiculo: Não parecia que Vítor Constâncio tinha ido ao parlamento prestar esclarecimentos. Parecia antes que tinha lá ido fazer uma conferencia, até na forma em que estavam dispostos os lugares: os deputados num plano inferior, e o governador num plano superior.
A conferencia começou como é obvio com um discurso do conferencista, que deveria demorar 30 min mas acabou por demorar 70. De seguida vieram as duvidas: os deputados em vez de interrogarem o Governador á vez, como o deputado Nuno Melo tinha pedido, não : apresentaram as suas duvidas em bloco. Como isto não facilitasse suficientemente a vida a Vítor Constâncio, este ainda teve direito ás perguntas brilhantes do deputado socialista, que andavam sempre á volta do “porque é que o senhor é tão inteligente?” ou “diga-me senhor governador, como consegue se vestir tão bem?”.
Depois de Constâncio passar a hora inteira de perguntas, de cabeça virada para baixo (talvez lhe pese a consciência), vieram as respostas . Se aquilo fosse um circo, esta seria a parte em que entram os leões, os elefantes, os tigres e os palhaços todos ao mesmo tempo:
O governador começa por chamar burros aos deputados dizendo que eles não sabem o que é a regulação (eu arriscaria que o problema não é a ausência de conhecimento da parte dos deputados, tendo estes apenas uma definição de regulação ligeiramente diferente da de Vítor Constâncio). Durante a hora e meia seguinte, o representante máximo do banco de Portugal, fez mais uma vez um discurso extremamente chato, no qual repetiu incessantemente que não podia ter feito mais nada, ao mesmo tempo que se desculpava com os escândalos financeiros que houve em outros países, e que também escaparam ao controlo das autoridades. Adoro esta característica muito portuguesa: se “lá fora” fazem tanta ou mais merda que nós, a merda que nós fazemos, por definição, deixa de ser merda. Como é obvio no meio desta avalanche verbal de aborrecimento, ficaram por responder muitas das perguntas pertinentes feitas pelos deputados: com por exemplo o tempo de demora (90 dias) até ser apresentada queixa no ministério publico. A falta de reacção do BP ao vaivém de auditorias e de administradores, no BPN, também ficou por explicar. Etc.
Eu não queria entrar no habito, extremamente português de gritar “lincha! Mata! Esfola!”, mas penso que neste caso o pedido de demissão feito por Paulo Portas, é inteiramente justificado.

Caso BPN explicado às crianças

Fui perguntar aos meus primos de 8 anos o que achavam das críticas dos pais à minha decisão de os deixar fazer tudo quanto queiram enquanto estão sob a minha supervisão.

Esta foi a resposta que eles me deram: «não vemos "nenhuma razão para se dizer que a supervisão falhou".»